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Noite de autógrafos


 

Olha lá! Olha lá! Será que é ele mesmo, Astrênio?

É ele sim, Dalvinéia! Ele já tá até rascunhando as dedicatórias!

Ainda bem que a gente chegou na frente… Meio cedo, mas também assim a gente evita a filona que vai ter daqui a pouco.

É, esse prédio tem entrada, porta e escada pra tudo quanto é lado. Se a gente não chega cedo, ia mais era se perder. Capaz que nem chegasse a tempo.

Ainda bem que a gente comprou o livro antes. Vamos lá, aproveita que ele tá sozinho.

Com licença… Boa noite, professor. A gente já trouxe o livro, professor.

O livro? Ah, já sei…

A gente queria, professor, que o senhor fizesse uma dedicatória bonita… Nós somos seus fãs de carteirinha.

Ah, sim! Pois então…

Nada de modéstia, professor. O senhor acredita que minha cunhada Marilice engravidou lendo seu livro “Como ser feliz no casamento apesar do marido”? Deu certinho! Antes da página quarenta ela já tava de barriga!

Astrênio, fala pra ele daquele teu amigo! Bebia que nem gambá, vivia mais apertado que piolho em pente fino. Ele leu a obra-prima “O problema não é beber, é ficar bêbado”. Não parou de beber, mas agora anda numa alegria que até irrita a gente.

. Pra falar a verdade, a gente ainda não leu nenhum livro seu, professor. Vamos começar com esse aqui: “Nem mesmo no céu tudo são flores”. Estamos sendo sinceros. O senhor não acha que todo mundo deve ser sincero?

Achar eu acho, só que…

Tem uns críticos analfabetos por aí que dizem que isso tudo é alto-ajuda de má qualidade, que o senhor é o rei do lugar-comum, mas eu e a Dalvinéia achamos que o senhor tinha mais era que estar na Academia, no lugar do tal Carlos Drummond de Andrade, que ninguém sabe quem é.

Daqui a pouco chega a multidão, então a gente veio cedo pra ter essa conversa de coração com o senhor, é ou não é, Astrênio?

É… De coração. Professor, faz aí a dedicatória. “Para Dalvinéia e Astrênio. Que a vida lhes seja leve como uma pétala de flor soprada pelo vento suave”. Ficou bonito, não ficou?

Ficou, mas eu preferia…

Hi, professor, não precisa esquentar cabeça! Essa dedicatória eu e a Dalvinéia gastamos quase um caderno inteiro, merece ser escrita.

Bem, não me custa nada, no entanto… Eu gostaria…

Outro dia vi o senhor na televisão. Quer dizer, ver, não vi, o senhor já tava saindo de costa, mas só o “boa noite” que o senhor deu já foi uma lição de vida.

Professor, o senhor não sabe a luta que foi chegar aqui na frente dos outros… Esse prédio tem não sei quantas entradas. Escreve aí e assina, professor.

Bem, já que vocês insistem. Lá vai: Para Dalvinéia e Astrênio. Que a vida lhes seja leve como uma pétala de flor soprada pelo vento suave. João Raimundo Mosteiro.

Ué! Que história é essa de Mosteiro, professor Antônio Félix Carranca?

Mosteiro sou eu. O Carranca está lançando um livro no outro lado do prédio, terceiro andar, sala 3001.

Cara… Caramba! Por que não falou logo que não era o escritor?! A gente aqui gastando tempo e saliva… Vai ver que o verdadeiro Carranca até já foi embora…

Eu tentei falar… Vai lá e pede a ele para assinar embaixo. Aliás, quem geralmente assina por ele é a secretária. Vai lá que, se o Carranca já foi embora, a secretária assina pra vocês. É tudo a mesma coisa. Boa Noite. E que a vida lhes seja leve… etc. e tal.

Cada picareta que a gente encontra, hem, Dalvinéia? Um professorzinho qualquer, se fazendo passar por escritor. Picareta!

 

******

 

DÚVIDA

Ela entrou no quarto e fechou a porta. Fiquei tão completamente tonto que até hoje não sei se aquilo aconteceu de fato ou se é apenas um microconto.

 

Robério José Canto

Sócio Fundador

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