A literatura permite que o leitor faça seus cruzamentos e inferências. Estando em casa e bem gripada, me pus a ler e assistir a filmes. Lendo os contos de Andersen (1908 – 1875), não somente para trazê-los aqui, mas para relembrar as histórias que fizeram parte da minha infância e reassistindo ao filme “Minhas vidas”, uma autobiografia de Shirley MacLaine, fiquei bem tocada e com vontade de me aprofundar em questões relativas à espiritualidade e ao sentido da vida. Inclusive, hoje, no café da manhã, conversei tranquilamente a respeito desses temas que me causam indagações e perplexidade diante do não saber.
Penso que, em algum momento da nossa existência, nos deparamos com reflexões místicas e transcendentes à vida. É saudável ir além da materialidade do quotidiano para que possamos pentear, ou melhor, desembaraçar os fios da nossa alma. Incrivelmente, penteando suavemente meus fios, encontrei pontos nessas obras que poderia relacionar.
A literatura infantil abre seus braços para as crianças e as conduzem aos meandros da fantasia, ao entretenimento e à sabedoria. O que tornou significativa a obra de Andersen para o mundo, tornando-a referencial na literatura infantil, é que seus contos trazem as dores humanas, a miséria urbana, os grandes dramas da humanidade, além de exaltar a dignidade dos personagens. Em alguns trechos, como na “Pequena Sereia”, ele aborda a imortalidade da alma. Ou talvez seja o tema central do conto, posto que a Sereia deixa de existir para ganhar a alma imortal.
Ao romper com os tradicionais “felizes para sempre”, Andersen, em alguns contos, apresenta o curso da vida real e reflete sobre a complexidade da experiência humana. Como no conto “A pequena vendedora de fósforos” em que ele escreve o final com transcendência e libertação.
O desenvolvimento da narrativa dos seus textos se detém na transformação humana e na evolução espiritual. Seus protagonistas são seres de alma sensível. Em “O soldadinho de chumbo”, ele faz o leitor concluir que a alma do personagem possui essência inabalável, através da sua coragem, seu amor eterno e da fidelidade aos próprios valores. É um conto tocante do começo ao fim, até porque o soldadinho é o único que foi esculpido no batalhão sem uma perna por falta de chumbo. Mesmo assim, é capaz de enfrentar as diversidades que a vida lhe apresenta.
Já escrevi a respeito de Hans Christian Andersen em coluna anterior. Porém tendo o livro “Os contos de Andersen” nas mãos, folheando aleatoriamente os contos, vou me comovendo com a capacidade que ele tinha de pinçar os temas mais delicados enfrentados por nós. Quem lê os contos, não os adaptados, mas os traduzidos dos originais, tem a impressão de que ele está ao seu lado, contando uma história. Os adaptados podem modificar a narrativa para melhor se adequar ao mercado infantil de consumo. Por outro viés, são contos que requerem a presença de um adulto ao lado do leitor infantil para que possa conversar com ele sobre os temas apresentados em cada conto, que são muitos.
Entre um conto e outro, assistia ao filme “Minhas vidas (“Out on a limb”), lançado nos Estados Unidos em 1987, baseado no livro autobiográfico, publicado em 1983, em que Shirley MacLaine conta experiências, como a espiritualidade e a reencarnação, como a meditação e a vida extraterrestre. Nessa obra, Shirley narra suas experiências em busca das conexões que possam existir entre sua vida/destino com sua alma.
Um mentor espiritual a orienta nessa travessia, tendo a finalidade de que ela escrevesse essas experiências transcendentais num livro e as publicasse de modo que muitas pessoas pudessem conhecer as mensagens de seres mais evoluídos e que habitam em outros lugares no universo.
A maior parte das experiências relatadas aconteceram durante uma viagem que fez com seu guia ao Peru, nos Andes, nas montanhas de Machu Picchu. Shirley me faz lembrar “O patinho feio”, de Andersen, que viaja mundo afora para buscar sua identidade. Porém seu poder estava desde sempre com ele, posto que os animais ao seu redor não lhe permitiam que percebesse, de fato, que era um cisne. Ao se encontrar com outros cisnes pôde experimentar seu esplendor.
No final do filme, durante o diálogo de despedida com seu instrutor, ela lhe pergunta o motivo das tantas vidas que uma alma possa ter. E ele responde que as almas evoluem com as vidas e, na medida que cada uma se transforma, todas também se apropriam de valores e princípios, de modo que o universo também vai se aprimorando.
Foi bom ter ficado gripada e ter tempo para mergulhar em temas essenciais. Através da literatura, pude apreendê-los com delicadeza, boas palavras e imagens. Nem senti o tempo passar!
Tereza Cristina Malcher Campitelli
Sócia Fundadora

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