Cada pessoa tem um modo de perceber e sentir peculiar, dependendo do seu estado de humor ou espiritual. Por que não mergulhar no modo poético para viver a rotina diária? Ah!, não é loucura nem alienação ter um olhar aveludado. Noutro dia, escutei de uma amiga, poeta, que ela costumava declamar poemas para os passarinhos que pousavam em sua janela. Eu já me encantei com uma borboleta que pousou na janela, sem se assustar com a minha presença. Como eu me sentia triste naquela tarde, com saudade de alguém que partira para o universo, tive a impressão de que ela fosse um anjo que estivesse ali para me acalentar.
Como é bom acordar, tomar o café da manhã, escutando as composições de Bach, por serem poesias melódicas e terem espiritualidade, especialmente a Orchestral Suíte Nº 3. São músicas que estimulam uma pessoa a viver com paz e equilíbrio, além de embelezar os momentos iniciais do dia. Momentos que interferem no modo como vamos gerenciar as situações que vão surgir pelas energias emanadas dos seus acordes. Pensamos no que vai acontecer, mas não sabemos as surpresas que nos aguardam. A vida é imprevisível, desafiadora e, por vezes, cruel. Ora pois, não precisamos estar alimentados por Deus?
Manoel de Barros deixava a natureza brilhar através dos seus olhos de poeta. Ver a vida pelas palavras meigas de beleza verde, cheia de asas e penas coloridas tem o toque da divindade, mesmo naqueles dias em que as coisas estão confusas, em que tudo se complica e as horas correm velozes. O poeta tinha um olhar encantado para a vida e, assim, a transformava. Suponho que ele se encontrava com Deus, como sugeriu nesse seu poema:
“Deus disse: vou ajeitar você num dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me. Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros”
Estamos em 2026, tempo carregado de mudanças complexas, como as tecnológicas, que nos desafiam a múltiplas adequações, que nos trazem ao mesmo tempo facilidades e questões a serem refletidas e resolvidas dado os seus impactos sobre a realidade pessoal e profissional. É uma era em que a ética precisa ser reestabelecida em todos os âmbitos da vida social, cultural e econômica.
Quem já encontrou seus pontos de equilíbrio?
Como dizem: o futuro a Deus pertence. Precisamos olhar para o nosso redor, sentir com plenitude e nos entregarmos aos braços de Deus. Que vai nos inspirar para construir um futuro digno, o destino de cada um, a maior obra humana.
Bach, Manoel de Barros, Joan Miró, e tantos outros artistas, filósofos e políticos iluminaram a existência humana com suas obras, feitos e pensamentos. Aceitaram, mesmo sem ter consciência, a presença de Deus. Dele receberam o equilíbrio de forças, a criatividade, a expansão e promoveram o acontecer inédito, criativo e audacioso.
Cada um estabelece uma relação íntima e individual com o divino, e, acredito, é um contato que acontece de diferentes formas. A pessoa, mesmo se declarando ateia, reconhece a presença de algo mais forte, que está além de tudo e de todos, através de momentos em que todo o seu ser se enleva para admirar, digamos, uma paisagem. Que seja uma obra de arte. Ou um gesto de amor.
“Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece”
Fernando Pessoa
(primeiros versos do poema Deus)
Que Deus esteja perto de nós, caminhando nas ruas, tocando violão na praça, atendendo pacientes no hospital, controlando o trânsito, brilhando nos olhos dos animais, vendendo jornal na banca, dirigindo ônibus, enviando mensagens de paz no celular de um amigo.
Para finalizar deixo um verso de “Tente outra vez”, composição de Raul Seixas em parceria com Paulo Coelho e Marcelo Motta, em que o princípio divino é declarado: Viver é lutar.
“Não diga que a canção está perdida.
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida.”
Tente outra vez.”
Tereza Cristina Malcher Campitelli
Sócia Fundadora

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